Cineasta australiano adapta o livro de McCarthy produzindo um marco na cultura visual do colapso civilizacional. Eis a crítica de Eduardo Carli em vídeo e transcrita em texto:
O Antropoceno entra em cena e um dos seus campos de atividade mais profusa são as distopias. E muitas dessas narrativas distópicas nós costumamos chamar de “pós-apocalípticas”. E aqui eu quero problematizar um pouco esse termo, porque me parece que ele nos deixa ainda reféns de uma mitologia judaico-cristã, de uma escatologia bíblica, quando de fato se trata de narrar o que ocorre com os sobreviventes – ou os que sobram vivos – após um colapso civilizacional.
Estou aqui, por exemplo, com o Greybeard, de Brian Aldiss, em mãos – que é, na minha opinião, um dos melhores livros de sci-fi distópica que eu já li (está na coleção Science Fiction Master Works). E eu queria tentar colocá-lo em paralelo com o filme A Estrada (The Road), que foi dirigido por John Hillcoat e baseado no livro do Cormac McCarthy, porque me parece que as duas obras revelam não propriamente esse mundo “pós-apocalíptico”, mas sim um mundo devastado por um evento catastrófico que fez colapsar a civilização como a conhecemos e todas as suas conveniências, todas as suas facilidades.

No filme, o que ocorre é que pai e filho, após a morte-por-suicídio da mãe (Charlize Theron), estão trafegando por um mundo gelado, devastado, onde eles têm muita dificuldade para encontrar comida. E onde parece ter desaparecido completamente a capacidade que a nossa civilização tem atualmente de manter veículos motorizados queimando combustíveis em motores de combustão interna. Ou seja, eles trafegam com a força dos seus próprios corpos, empurrando carrinhos de supermercado, rotos como mendigos, por uma paisagem danificada. Aqui poderíamos evocar uma autora como Anna Tsing, que vem escrevendo e falando magistralmente sobre as artes de viver nas ruínas, em damaged landscapes, e ousamente propondo que temos muitas lições a aprender… com os fungos. (cf. O Cogumelo No Fim do Mundo)

É muito comum que o filme seja descrito – e eu acho que é um pouco simplista falar isso – como uma distopia de sobrevivência ou de sobrevivencialismo. Em inglês, o termo que se usa é survival e survivalism. No entanto, não se trata apenas desse pai e desse filho na urgência de sobreviver, pois há uma reflexão mais profunda sobre isso. E para compreendê-la, nós precisamos atentar na figura dessa mãe, dessa esposa interpretada pela Charlize Theron, que apesar de ter um papel de coadjuvante, um papel secundário – ela está por pouco tempo em tela –, me parece simbolizar algo diferente desse ímpeto sobrevivencialista. É uma mulher que acaba por decidir, acaba por tomar a decisão ética, de que ela não quer sobreviver. Ela não aceita viver nesse mundo pós-colapso apenas lutando pela mera sobrevivência; ela não considera isso uma vida digna de ser vivida.
O filme evoca uma queda, uma ruptura, inclusive na sua paleta de cores. Porque por 80 ou 90% do filme nós temos aquele tom cinzento, amarronzado; aquele mundo descrito como permanentemente nublado, como se não houvesse raio de sol nesse mundo pós-colapso.
E, no entanto, o filme tem breves momentos – seja em flashbacks, seja em sonhos nostálgicos na mente do personagem de Viggo Mortensen, do pai – em que a paleta de cores ganha muita vida, ganha muito colorido e se torna solar. Então é um modo de, através da paleta de cores e de contrastes extremamente fortes, apontar para um bom mundo que se perdeu, uma boa terra que se arruinou.
E nesse aspecto também a música se manifesta, porque essa personagem da Charlize Theron – essa mãe e essa esposa – é também descrita como uma pianista que chegou a tocar muito bem. Mas, nessas condições distópicas inauguradas ali pelo que parece ser um acidente nuclear ou uma guerra oni-aniquiladora, torna-se uma pessoa deprimida, niilista, sem ânimo, sem vontade de sobreviver justamente porque a vida ficou reduzida ao mero sobreviver.
O filme está a todo momento evocando a possibilidade do suicídio. A jornada pela estrada de pai e filho é feita com um revólver com duas balas. Inclusive, o pai ensina ao filho a tática para se autoaniquilar, caso fosse necessário – digamos, ensina um caminho para a autoextinção através de um tiro na cabeça a partir do céu da boca. Que coisa bizarra: um pai ensinar isso a um filho! E, no entanto, é este o mundo em que estamos no caso de The Road.
E me parece também que a música que enche essas cenas distópicas do filme com aqueles pianos delicados e melancólicos – que fazem quase que uma espécie de homenagem a Chopin – certamente nos dá a impressão de que estamos vendo um filme. Ou seja, não é uma música que esteja presente de fato naquele mundo colapsado (em termos técnicos, não é trilha sonora diegética), mas é uma música que parece nos invadir a partir da psiquê desse personagem, que se lembra da sua falecida esposa, que se lembra da mãe de seu filho e que conserva a saudade ou a nostalgia de um mundo onde se tocava piano, onde se liam livros e onde sentíamos os raios de sol baterem em nossa pele. Tudo isso acabou, tudo isso foi extinto.

No caso de Brian Aldiss e Greybeard, existe algo semelhante. Ocorre um evento chamado The Accident – ou “acidente” –, armas nucleares explodem em órbita e a humanidade se torna estéril; as crianças param de nascer, de maneira muito semelhante também a Children of Men, que P. D. James escreverá e Alfonso Cuarón filmará.
E aqui na descrição, na sinopse do livro, tem essa frase lapidar que também se aplica a The Road: “Civilization has crumbled.” Crumbled, ou seja, ela desmoronou, ela virou farelo, ela se desfez em migalhas.
Isso nos leva a pensar sobre as causas do desmoronamento civilizacional e o quanto isso é hoje objeto não apenas da criatividade de artistas distópicos, mas também de uma ciência emergente – na qual inclusive nós, das ciências humanas, temos muitas contribuições a dar – que é a colapsologia, ou estudo racional do colapso, a aplicação do logos à compreensão desses fenômenos de crumbling civilizations. Eis aí a descrição do livro – vejam que interessante:
“In scattered enclaves, the old live as best they can, while nature overwhelms the cities and roads. Greybeard and his wife, Martha, embark on a boat trip down the Thames to the sea. A journey into the strange new landscape, encountering extraordinary communities and people in search of hope.”
Ou seja, em enclaves esparramados pelo que um dia foram metrópoles essas pessoas mais velhas tentam se virar o melhor que podem, enquanto a natureza vai tomando conta do que antes era artifício. Avenidas e cidades são tomadas por vegetação e por fungos.
No caso do livraço de Aldiss, o protagonista e sua esposa, o Greybeard (Barba Cinza) e Martha, vão jornadear em busca de uma vida melhor e vão ter os seus encontros numa espécie de jornada dos heróis distópicos, que me evoca muito também a jornada de pai e filho em The Road – uma jornada que vai incluir um debate ético que eu também quero problematizar aqui.
O ponto de vista da criança, o viés apresentado por esse menino, é extremamente maniqueísta. O que é previsível, o que é aceitável, o que é inclusive realismo na caracterização do personagem – porque, enfim, ele ainda está sendo educado a partir de livros, de quadrinhos e de relatos orais desse pai que lhe transmite uma visão de mundo cindida entre os bandidos e os mocinhos – the good guys, the bad guys.
E aí tem um debate ético rolando no filme inteiro. E tem uma frase em especial desse garoto que eu acho genial, que eu acho bastante emblemática desse filme, que é quando ele diz para o pai: cara, você não está conseguindo mais fazer a devida distinção entre os bons e os maus, entre the good guys and the bad guys. E ele usa a expressão: “You can’t even tell anymore.” Ou seja, você não consegue mais distinguir entre bem e mal num cenário que parece a guerra-de-todos-contra-todos. Os outros começam a aparecer para esse pai como compondo uma grande massa de inimigos. Todo mundo é inimigo. Então é difícil para esse pai compreender qualquer indivíduo ali como um possível aliado.


E a jornada desse filme – e a jornada do herói mirim –, por incrível que pareça, tem uma espécie de final feliz no meio de uma melancolia extremada, é claro. Mas esse garoto acaba servindo no filme como o último refúgio de uma atitude ética que o grande pensador Kropotkin explorou em uma das suas grandes obras, Mutual Aid – ou Ajuda Mútua. No sentido de que esse garoto, diante de alguns desconhecidos, clama ao pai para que tenham uma atitude caridosa, uma atitude de ajuda, uma atitude de partilha, uma atitude de “caminhemos juntos nessa estrada terrível e talvez façamos assim de nosso caminho algo mais leve”.
(ALERTA: SPOLIER ADIANTE!)
Quando esse pai finalmente falece, naquela praia, no fim do filme, e esse garoto se vê na perspectiva de seguir sozinho, ele percebe instintivamente – como uma espécie de sabedoria proveniente da sua fragilidade, da sua nova vulnerabilidade – uma oscilação entre a sobrevivência que lhe foi legada como uma missão por esse pai, com os instrumentos que também lhe são entregues, e o suicídio a que sucumbiu sua mãe (Charlize Theron). Ele é um herdeiro dilacerado de alguém que tentou sobreviver e de alguém que se matou. Enfim, o pai perdeu a batalha da sobrevivência, mas não por autoextinção. Então o pai está querendo legar ao filho a sua própria atitude em prol do survival. Enquanto esse filho também está sendo persuadido pela sua mãe a abandonar o campo de jogo e a se autoextinguir, sair da terra devastada pela via suicida.
E naquele momento há um encontro na praia, onde ele fica nessa grande indecisão. E aí: esse cara que eu encontrei agora – ele é um dos good guys ou é um dos bad guys? Como é que eu classifico ele nessa grande divisa moral maniqueísta? Que é também uma questão: posso confiar ou não nessa pessoa? Trata-se de um dilema ético enraizado no conceito ou sentimento do trust.
Ele aponta aquele revólver para o sujeito. Se ele atirasse nesse sujeito, ele ficaria sozinho; se ele não atirasse e o sujeito fosse um dos bad guys, ele poderia sofrer consequências terríveis, muitos sofrimentos. Então é um dilema que se coloca naquela praia, onde inclusive o mar não é descrito como azul – é um mar realmente cinzento, terrivelmente não convidativo e não hospitaleiro para banhistas, é um mar morto literalmente. E ali que se joga na obra, nesse xadrez distópico, a possibilidade de um raio de luz, que de fato se mostra nesse fim quando o menino decide confiar nesse estranho a partir de um diálogo onde esse o recém-conhecido homem revela que tem filhos. E ele fala inclusive: “nós temos filhos”. Ou seja, ele dá um indicativo de que pertence a uma família.
E o garoto então, ao invés do destino da terrível solidão, parece encontrar ali a possibilidade de se juntar àquela trupe familiar e seu cachorro como mais um agregado. Ele é bem acolhido pela figura feminina que se desenha como uma substituta da mãe, até.
Esse filme profundamente sinistro acaba numa chave relativamente otimista, num certo sentido, dizendo que mesmo após as piores catástrofes algumas famílias permanecem unidas, e mesmo que elas estejam morrendo de fome, elas não praticam o canibalismo e elas sempre podem acolher mais um. Elas sempre podem dividir o seu pão. Elas sempre podem acolher alguém que queira caminhar junto para dividir os fardos de uma jornada terrivelmente desafiadora, gélida, desconfortável e perigosa. Então é isso.
Esse filme, me parece, tem algumas falhas graves que também impedem a gente de considerá-lo uma das melhores obras do que eu chamo de distopias antropocênicas. Sobretudo porque em nenhum momento se investigam as causas desse colapso civilizacional – simplesmente acontece – e de nenhuma forma se explora nenhum tipo de ideário ecológico ou geopolítico que nos ajudasse a compreender como essa hecatombe, como essa catástrofe se deu.
Isso que eu estou considerando uma falha do filme pode também, por um crítico um pouco mais generoso, ser considerado como uma espécie de realismo psíquico em relação aos personagens, porque após a catástrofe parece-me que para eles já não tem nenhum sentido a investigação das causas; eles estão convivendo com os efeitos.
Ou seja, esse filme é muito interessante para mostrar um regresso à barbárie, por assim dizer. Podemos problematizar, é claro, o termo “barbárie”, a maneira como na civilização grega os helenos construíram a figura do bárbaro como esse estrangeiro que não falava a nossa língua, como aquele que fala um mero blábláblá ininteligível. Ou seja, bárbaro já é um conceito que fede à xenofobia e a uma postura diante da alteridade que é de enclave, de apartheid.
Mas vamos usar essa palavra para simplificar o debate e dizer que essa passagem da civilização para a barbárie – essa queda, estruturas sociais e políticas que se dissolvem, algo regride brutalmente, algo se torna bem menos complexo do que era; os alimentos que eram produzidos não são mais produzidos, o sistema de distribuição de água não mais funciona como deveria, a eletricidade que um dia houve profusa em todas as casas civilizadas não está mais ali etc. –, digamos que essa queda na barbárie ocorre após uma catástrofe e para essas pessoas já é tarde demais para voltar atrás. Não é possível desfazer o que foi feito. E nesse sentido não sobra também muita disposição, muito ânimo ou muito sentido em ficar debatendo o que poderia ter sido feito e não foi, porque nós estamos de fato no tempo-do-tarde-demais.

Isso me interessa nesses filmes distópicos também: revelar-nos o tempo-do-tarde-demais, que ainda não é o nosso, mas que nós estamos nos acelerando para tornar o nosso tempo. É como se nós estivéssemos acelerando de maneira suicidária, auto-fágica (cf. Anselm Jappe) na direção dele. Estamos diante, por exemplo, do decênio decisivo, como diz o Luiz Marques, e não estamos agindo à altura do desafio. Pode ser que, assim como os personagens desse filme, chegará um momento – no futuro não tão distante assim, algumas décadas, alguns séculos – onde terá se tornado tarde demais qualquer discussão sobre como pôr obstáculos às causas dessa grande catástrofe.
Então é um filme aterrador, um filme assustador e um filme que nos entrega um certo grau de consolação. Mas quero finalizar esse vídeo trazendo essa crítica: o enredo é ainda muito careta no sentido de que há uma aposta em valores familiares tradicionais. Há uma aposta ali, no final das contas, numa esperança centrada nessas duas famílias: a família que aparece no final para resgatar esse menininho, e a família nuclear da qual esse menino se origina e que colapsa. Com esse colapso, esse menino vai se tornar um órfão – primeiro da mãe (suicida), depois do pai (que falece). Ou seja, essas duas famílias ainda são entendidas como o locus da generosidade, e esta que parece depender do sangue, do consanguíneo, do hereditário. “Você tem os meus genes, então eu vou fazer tudo por você” – esse papai diz que mataria qualquer um para salvar o filhote.
São alguns valores bastante suspeitos neste momento histórico (como soa para vocês a apologia da “família tradicional brasileira”… ou estadunidense?) e que me fazem até mesmo questionar se esse filme não seria melhor se ele tivesse tido uma ancoragem, se ele pudesse se escorar mais fortemente, mais intensamente num ideário do tipo Kropotkin. Eu sou um grande admirador desse pensador anarquista russo, e em especial do Mutual Aid, e eu acho que nesse filme aparecem alguns pequenos, breves, frágeis sinais de uma ética do Mutual Aid.
Mas, afinal de contas, o filme acaba se degradando numa mensagem familista, numa mensagem que reforça um pouco esse maniqueísmo – the good guys, the bad guys – e, obviamente, o good guy é o pai de família que está protegendo ali os seus filhos e sua esposa, e os bad guys são aquelas milícias Mad Maxianas que estão ali e que também não se explicam melhor: qualé a dessas pessoas? Que tipo de ideário político, por exemplo, as anima? Então elas ficam parecendo realmente forças caóticas, destrutivas, malévolas, que contribuem para esse contraste entre the good guys e the bad guys.
Esteticamente, eu acho esse filme um pouco binário demais… O próprio contraste da paleta de cores que eu mencionei cria um dualismo muito forte, muito hiperbólico, entre aquele casal feliz – aquela Charlize Theron magnífica, gostosa, com aqueles vestidos floridos; as primeiras cenas do filme com aquelas flores remetendo quase a um idílio – e, de repente, o outro extremo, esse mundo do inverno nuclear. Então me parece um filme um pouco apelativo, que apela demais para esses dualismos, para esse idílio contrastado com a terra devastada, com essas milícias malévolas e canibais em contraste com a família dos good guys.
E, no entanto, é um filme-marco. É um filme no século XXI que marca esse campo do sci-fi distópico após o colapso civilizacional. Mas que, me parece, não chega aos pés de uma obra como Greybeard, de Brian Aldiss. Mas isso é assunto para outro vídeo e outro texto, em que tentarei trazer mais nuances para esse juízo de valor. No entanto, deixo desde já a dica de leitura e a dica de filme também: The Road de Hillcoat merece ser assistido por todos nós que estamos preocupados com a grave situação que passa a biosfera, que passa o planeta Terra, que passa a entidade chamada Gaia nessa época turbulenta, onde vai se tornando cada vez mais plausível que possamos entrar no tempo do tarde demais – que ainda não chegou.



McCarthy em Cia das Letras
Publicado em: 06/08/26
De autoria: Eduardo Carli de Moraes educarlidemoraes
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